E por uma noite, em amanhecer esquelético ele se foi. Rindo também. Nem ao menos me odiava, havia me atirado daqueles penhascos estúpidos. Ferido e arrastando eu busco. Meu punhal mais fino, meu véu mais brilhante, para que serve uma pessoa quebrada? Do fundo do fogo eu o matarei e só queria matá-lo mil vezes. Mil vezes. Mais de mil vezes. Mais. Antes daquele quarto havia uma escada estreita de madeira escura. E só passei por ela duas vezes, uma quando subimos juntos, outra quando desci sozinho. O alto era uma pequena catedral com vitrais esplêndidos. O sol fazendo poeira e aranha nos poiais e ele me abrindo. Como se eu fosse uma renda branca rasgando, como se ele fosse vermelho e antigo. Como se ele nunca houvesse nascido. E não soubesse nada a não ser felicidade, alegria, espasmo, amor, braços, pés. Até meus pés. Era a tarde do fim do mundo, lá fora ciclones e nuvens de gafanhotos sobrevoavam as cidades e engoliam as pessoas, as plantações. Escureceu e o céu era um cacho de uvas novas atrás do vidro recortado. Não comemos, não fizemos nada, e se ele tivesse me deixado naquele instante eu teria aceitado. Mas dormindo ali ele prometia uma vida toda e respeito. Apenas uma coberta imunda. Podia chover. Seria perfeito. Eu via a madressilva crescendo e ouvia estalidos de música e de ninhos. ( e quando eu fiz esse trecho, quase uma bobeira para o que seria "Viagem ao Sul", eu não sabia que ele viria e que eu tinha um grande dom profético e triste de adivinhar minha própria felicidade, meu futuro abandono e a raiva. Mas é só uma epígrafe desligada de todo o resto que eu já mudei, novas luzes estão acesas e eu trabalho, trabalho, trabalho para construir as barreiras). Só.

1 Comments:
"como se eu fosse uma renda branca"
me diga quando eu vou conseguir esses textos que vc faz?...porque eu sempre fico tão perdida no que escrevo?...eu queria fazer assim que nem você (este ficou arrebatador!)
ps. eu só posso falar do texto, das coisas de dentro, você sabe.
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