Thursday, September 29, 2005

Tem chovido muito e o céu fica azul escuro. Nuvens como dunas. A velhinha não aparece mais no quintal, o velho de botas de borracha verde não vem podar os hibiscos, as andorinhas fizeram um ninho na garagem do prédio. Ou as ilusões. Ando tendo revelações súbitas, quando caímos na piscina e filmavam, quando rolamos na grama até que tudo se tornasse lama e eu estivesse um monstro e filmavam e fotos fotos fotos. Minha imagem repetida sorrindo e dentro os fogos explodindo. Por dois dias tive a impressão de estar apaixonado por um outro rapaz: ele não respondeu meu scrap. Não sei, ele havia me achado divertido quando conversamos na ponte e a chuva havia acabado e o sol era estranho (a camiseta dele era azul e amarela, a minha era azul, amarela e verde). Não estou apaixonado. Ou: não estou apaixonado por ninguém além de Mildred Rogers. Mas Mildred não conta porque vive em um livro e em um filme (e nesse ela está usando Bette Davis). A vida tem sido fácil, muito estudo e estudar é uma seqüência de chutes no estômago ou de tranqüilizantes _ em dois minutos você já se esqueceu até do seu nome. Tenho a grande sorte de triunfar sobre os barulhinhos da casa e me concentrar. De resto ando mole, briguei com alguns amigos antigos, estou irritado com outros. Saí com desconhecidos e até encontrei um colo onde minha cabeça parou por meia hora. Bem antes do meu aniversário. Mas ter vinte e dois não é ter tudo. E a escrita anda mole.
(queria escrever diálogos como os de Hemingway)
Ontem de dentro do carro subitamente eu vi Michelle Vox (a Michelle de seis anos atrás) em uma mesa de restaurante de esquina. Esses pequenos com pratinhos caprichados mas grosseiros. Estava acompanhada por dois homens e levantava o garfo (com feijão?), sorria. Não sei quem eram os homens, não sei quem era Michelle Vox (mesmo de longe eu vi que agora ela usa um gloss bem clarinho e roupas decentes). Só não era a Michelle do final do colegial. A que sempre me perguntava:
_Posso te fazer uma pergunta? Você fuma? Escondido?
Ela não me viu e o garfo deve ter continuado e chegado na boca onde o sorriso morreu. E se ela tivesse me visto dentro do carro. Ela veria outro Juanito. Menos-juanito. Nem tão alegre, nem tão bobão. Aliás talvez Michelle não me percebesse. O céu azul escuro é mais bonito.
(eu volto a escrever quando a escrita voltar _ aos poucos)

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